Por muito tempo, as pessoas acreditavam que contar e ler uma história eram as mesmas coisas. Nos dias atuais, frequentemente, encontramos pessoas que utilizam o termo “contar uma história” para toda e qualquer ação que se refere ao ato de ler para crianças. Essas pessoas, na verdade, não estão contanto uma história, como dizem.
Existe uma distinção entre as duas ações: contar e ler uma história, isso ocorre, pois existe uma grande diferença entre a palavra oral e a palavra escrita. Quando a comunicação se dá através da palavra oral, nosso centro de percepção é o auditivo. Matos (2009) cita que uma característica da percepção auditiva é que ela nos proporciona a experiência da unidade. O som nos invade por todos os lados e passa através de nós. Desta forma, todo o nosso corpo é uma unidade auditiva, pois estamos no centro do campo sonoro. Além disso, as expressões do corpo, os gestos, o ritmo e a entonação de voz imprimem o sentido às palavras e proporcionam ao ouvinte as emoções que existem por trás do texto. Quando ocorre a leitura (palavra escrita), o centro de percepção é a visão. Matos (2009) destaca que se o som incorpora e unifica, a visão isola e separa. Quando mergulhamos em uma leitura acabamos nos separando do mundo e a nossa viagem é solitária. Se a oralidade está associada à ideia de grupo, a leitura associa-se ao indivíduo em sua introspecção e reflexão analítica.
Na narrativa oral, o contador precisa ter uma interação com o ouvinte e as reações que ele terá durante o momento da contação são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa. Através dessa relação entre contador e auditório o conto acaba sendo criado e recriado diversas vezes. As expressões de prazer, medo, ódio, alegria, dentre outras, que o ouvinte transmite, faz com que o conto, embora seja contado várias vezes, nunca seja o mesmo, pois os ouvintes e o momento são diferentes. Porém, quando se utiliza a narrativa escrita (leitura), o leitor precisa ser fiel ao que está escrito no livro, ou seja, ele não pode mudar as palavras que contém no mesmo.
Matos (2009) destaca que a arte do contador envolve expressão corporal, improvisação, interpretação e interação com seus ouvintes. Ele recria o conto juntamente com o auditório à medida que conta. Enquanto que o leitor empresta sua voz ao texto podendo utilizar recursos vocais para que a leitura se torne mais envolvente para os seus ouvintes, mas não recria o texto e não improvisa a partir dos estímulos do seu auditório, ele nem sequer interfere no estilo literário do autor.
Com isso, pode-se perceber que o papel do contador e do leitor são diferenciados, eles possuem centros de percepção distintos e envolvimentos diferenciados com a história.