Essa semana li uma matéria surpreendente numa revista de curiosidades. Dizia que a primeira viagem do homem a Marte já está marcada para 2023. “Quatro astronautas viajarão cerca de 70 milhões de quilômetros durante sete meses.” Serão realizados oito testes antes da nave partir. Minha surpresa maior foi esta: será uma viagem só de ida. Os tripulantes ficarão definitivamente no Planeta Vermelho para iniciar uma comunidade humana. Curioso foi saber que 200 mil pessoas se inscreveram para essa aventura interplanetária, mas apenas 40 serão selecionadas para as próximas viagens.
Eu não sei quantos entre os inscritos são brasileiros, mas pense comigo: se você fosse um entre eles, o que teria feito você decidir embarcar em uma viagem só de ida? O que há em nosso planeta capaz de indignar um cidadão a ponto de desejar partir da Terra? A poluição e o uso inadequado dos recursos naturais? A violência que cresce a cada dia? A falta de educação no trânsito que mata indiscriminadamente? A pobreza e a má distribuição de renda? A péssima qualidade de alguns serviços públicos? O desrespeito para com o professor? Os baixos salários, incapazes de promover uma vida digna a um cidadão terreno? O estresse e a desumanização crescentes nas grandes cidades? O silêncio dos inocentes? A corrupção? O embargo da burocracia? A ineficiência das leis?
Ora, os motivos para voar daqui podem ser tantos! Podem até ser de origem interior, como por exemplo, ter uma vida digna e próspera, ter realização profissional, ter acumulado anos de estudo e pesquisa, sem, no entanto, gozar a felicidade de ter ao lado um amor verdadeiro, sempre desejado, alguém que olhe nos seus olhos de igual para igual, numa aliança de paridade que funcione harmonicamente. Pode ser a frustração de ganhar o mundo inteiro, mas não ter uma alma nobre nem um espírito elevado. Se sua missão aqui na terra tornou-se impossível, será por isso que deseja partir pra Marte? Mas será que a missão em Marte será possível e terá sucesso? Ainda não sabemos. Marte pode ser, para alguns, a utopia, o não lugar, o sonho, algo semelhante a Pasárgada, de Manoel Bandeira:
Vou-me embora para Marte
Aqui eu não sou feliz
Em Marte terei tudo
Será outra civilização
Vou-me embora para Marte
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Me lembrarei
Lá serei amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora para Marte
De onde me virá o socorro? Será de Marte? Embora essa angústia seja normal e humana, embora esse mundo seja muitas vezes um vale de lágrimas e o ser humano sinta-se incompleto, sabendo que na Terra não há felicidade plena pra ninguém, ainda temos a chance de fazer boas escolhas, de fazer do nosso lugar um bom lugar! A chance de florescer onde estamos plantados, onde nossas raízes se estendem, sem perder a esperança, nem o encanto com pequenos gestos, que enchem a alma de alegria, paz e sossego. Essa sim é uma viagem com destino certo, repleta de ritos de passagem, uma viagem sem sair da Terra, uma viagem pra dentro de nós.