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Sandra Campos
    Sandra Campos nasceu em Feira de Santana-BA e formou-se em Pedagogia pela UEFS. Na universidade começou a escrever crônicas que eram lidas em algumas aulas. Voltou a escrever em 2013, por prazer pessoal. Em 2014 passou a publicar seus textos no jornal A Tribuna, de Rondonópolis-MT, cidade onde mora atualmente e desde 2015 é colunista do Viva Feira. A primeira crônica publicada em agosto de 2014, “O homem avulso”, já revelava as linhas de força de seu estilo: a escrita leve e espontânea, o lirismo e a intertextualidade, o olhar sutil e ao mesmo tempo agudo dos lances da vida. A crônica “Leve sua filha à feira”, escrita em janeiro de 2014, retrata a feira livre da Estação Nova, que ela costumava frequentar aos domingos com duas amigas de infância. Essa crônica leva o leitor a pensar na beleza e nas lições que não raro se ocultam sob a pseudobanalidade do cotidiano. A crônica que a autora considera a mais carregada de sentimentos e emoções, e também a mais comentada no site do jornal, é “A carta”, uma homenagem a sua mãe Celina. A cronista lançará em breve seu livro de estreia, “O homem avulso: crônicas e contos”, Editora Penalux. Aguardem.  (Texto: Marcelo Brito da Silva)



CRÔNICAS E OUTROS TEXTOS

O jardim de Helena


Publicado em: 21 / 06 / 2015 - 11:06:07


Em um sábado de manhã, a menina estava na casa de sua avó, quando chegou de longe o tio rico. Chegou em seu carro vermelho, último lançamento. Estava acostumado a trocar de carro todo ano. Chegou com pressa, como das outras vezes.  Costumava ficar três dias, no máximo, longe das suas empresas. Dizia sempre: “o que engorda o gado é o olho do dono”.

Pediram à menina que fosse com ele à casa de Helena, que também era rica, para lhe ensinar o caminho.  A menina prestativa entrou no carro e foi como estava. Eu particularmente gosto muito desse nome, cujo significado, de origem grega, é reluzente, resplandecente. Toda Helena é mesmo cheia de luz e graça. Esta era uma mulher estonteantemente bela, de olhos escuros e luminosos, que costumava se vestir com roupas de fino gosto. Seu requinte constava por toda a casa, até na escolha do cardápio semanal, designado às suas cozinheiras.

Chegando à casa de Helena, após os cumprimentos afetuosos, apareceu na sala de visitas uma sobrinha dela, que logo chamou a menina para tomar banho na piscina cercada por um belo jardim. Era manhã de primavera e o jardim de Helena despontava em flores: calêndulas, rosas, cinerárias, margaridas, orquídeas suspensas no muro lateral e, em destaque, três tipos de cactus, planta que representa a força do povo sertanejo, por sua capacidade de conservar água. Nativas da caatinga, são as únicas plantas que florescem o ano todo no sertão, e naquele início de primavera floresciam no jardim de Helena. Havia também um viveiro com pássaros que cantavam o canto rouco dos silenciados, dos que almejam voar, sair da gaiola para descobrir o mundo. Cantavam sem que ninguém ouvisse o seu canto por liberdade.

A menina disse que não estava com biquíni. Então, a sobrinha de Helena, tão cordial e educada, prontamente levou-a a um quarto e abriu uma gaveta repleta de biquínis. Mandou que ela escolhesse um. A menina admirada com tanta generosidade, escolheu, vestiu e foi para a piscina. Foi lá que a sobrinha, em um breve diálogo, descobriu que a menina não era filha do tio rico:

- Pensei que você fosse filha dele!

- Eu percebi, disse a menina, mas não sou. Sou sobrinha dele.

- E você não disse nada?!

- Era pra dizer? Se perguntasse, lhe diria, eu sei que faria diferença.

A menina resignou-se e continuou a curtir a piscina e apreciar o lindo jardim de Helena, sem se importar com o olhar de desdém lançado por sua condição de menina pobre.

Salomão nos ensina nos Provérbios que “as riquezas multiplicam os amigos, mas ao pobre, o seu próprio amigo o deixa”.  Miguel de Cervantes, citando Ovídio no Dom Quixote, escreve algo parecido, que com alterações minhas ficaria assim: Enquanto fores rico, contarás com muitos amigos. Mas, se ficares pobre, se prepare para os tempos nublados, pois estarás só! A menina sentiu, ainda que por poucos instantes, o gostinho de fel da triste, hipócrita e medíocre bajulação e pensou: “se algum dia eu tiver uma casa como esta, vou escolher bem os frequentadores, pois alguns tipos fariam mal até as plantas do jardim.”



Fonte: Sandra Campos/A Tribuna MT







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