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Silvério Duque
Silvério Duque, é um feirense de 31 anos, do signo de áries, cavalo no zodíaco chinês, dedicado as artes, em especial a música e a poesia, que convicto de suas escolhas, assim se define: "sou poeta, nasci em Feira de Santana, aos 31 de março 1978. Sou licenciado em Letras Vernáculos, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Além da poesia, assumo as atividades de músico, clarinetista, já coordenei a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense, aliás, as bases de minha formação musical advém das Filarmônicas; sou professor, crítico literário, escrevi e escrevo para vários jornais e revistas e sou autor de dois livros de poesia O crânio dos Peixes, ( Ed MAC, 2002 ) e Baladas e outros aportes de viagem, ( Edições Pirapuama, 2006 ). Meu próximo livro, Ciranda de Sombras, está no prelo.", no seu blogger, onde publica seus poemas e onde realiza sua críticas, ou como ele próprio diz suas "...considerações sobre a Arte e, principalmente, Literatura, as quais, obviamente, estão sujeitas às mais diversas críticas que serão devidamente aceitas, desde que feitas com inteligência, elegância e respeito." Silvério Duque, ainda no seu perfil disponibiliza todo o material de seu blogger, contanto que o credito seja dado a transcrição do trabalho.
 
O que Silvério Duque não pode falar de si ou do seu trabalho, é da competência e abnegação que ele demonstra quando executa uma canção no seu clarinete ou na sua gaita, ou na sensibilidade que ele coloca em seus versos, o que faz merecer o acompanhamento do blogger do artista para entender seu trabalho e suas escolhas.
 
SILVÉRIO DUQUE
Por amigos...
 
A ESCRITURA DE SILVÉRIO
por Ildásio Tavares*
Um dos momentos cruciais da formação do povo de Israel é quando Jacó assume a pole position, num golpe de mestre que começa com Esaú vendendo-lhe a primogenitura por um prato de lentilhas. Este factóide diz – de pronto – alguma coisa do temperamento e personalidade de ambos. Do imediatismo e gula de Esaú, da sagacidade de Jacó. Mais tarde, esta cessão da primogenitura tem que ser ratificada pelo pai de ambos, Isaac, que teria de dar sua bênção. Aí, Jacó se vale de outro estratagema. Como Isaac estivesse meio cego, Jacó seria apalpado. Esaú era muito peludo e então, Jacó se veste com a pele de um animal e assim consegue se fazer passar pelo irmão que lhe tinha concedido seus direitos.
 
Ao nomear este belo livro de sonetos finamente escandidos de A Pele de Esaú, quero crer que Silvério Duque tivesse se inspirado neste episódio, ainda mais que coloca a epígrafe da passagem em que o Senhor adverte Esaú que começava a querer-se rebelar, mas que finda por se afastar e criar seu próprio povo longe das doze tribos de Jacó que viriam a formar o reino de Israel. Esaú tinha sido tolo, contudo, era forte e também contava com as bênçãos de Deus. Vinha de uma linhagem cuidadosamente selecionada de Abraão e Sara, para Rebeca e Isaac e que desaguaria nos 12 filhos que Jacó teria com Zilpah, Bilhah, Lia e Raquel, formando o povo eleito, o povo de Israel, até hoje vivo.
 
Neste meridiano da perda e da rejeição, na figura de um Esaú destituído de seu destino, Silvério elabora uma intricada associação de sentimento e pensamento, buscando a verticalidade de personagens que se multiplicam porque se querem fundir em um só. Afinal, o drama de degredo e aparte que sofre Esaú é de todo ser humano, anjo caído, que um dia se apartou da presença de Deus. E toda odisséia que Esaú tem que executar na busca de si mesmo pode-se configurar em seus aspectos trágicos e cada poema deste livro, pois, discorre sobre um jaez da personalidade humana com este suporte analógico, na verdade.
 
Mais do que o simples discorrer lírico, em que o poeta se exprime de dentro pra fora, este livro encarna um processo dialógico e dialético em que o poeta entra e sai no personagem e extrai daí o seu significado, num trâmite de intersubjetividade. Esta atitude reforça os aspectos dramáticos do poema e, ao dar voz aos personagens, torna o contexto mais efetivo. Destarte se estabelece um fio condutor que vem conferir unidade ao texto. Aliás, o livro todo é muito bem organizado, com um exato rigor de expressão e de ordenação, todo ele muito coeso, em suas partes, em suas divisões, o que consiste, em verdade, uma cortesia para com o leitor.
 
Do ponto de vista formal, o livro é impecável. Depois dos primeiros originais, eu recebi mais duas emendas do autor, provando que há um critério e disciplina no sentido do apuro textual, algo que considero fundamental.
 
Tenho visto inúmeros textos de aspirantes a poetas que não se dão conta que a poesia é a mais perfeita das artes. Apresentam-me, na verdade, um rascunho. Mesmo alguns poetas ditos consagrados mostram-me textos sintaticamente imperfeitos e inçados de cacofonias – poesia é a redação mais elevada. Silvério sabe disto e passa a limpo várias vezes seu texto. Respeita e venera a redação de sua poesia. Por isso pode pôr conflitos no papel com efetividade... Por isso é poeta.
* O baiano Ildásio Marques Tavares é poeta, ficcionista, dramaturgo e jornalista. Segundo nota de Assis Brasil, em A poesia baiana do século XX, pertence à geração Revista da Bahia, juntamente com Cyro de Mattos, Fernando Batinga de Mendonça, Marcos Santarrita, Alberto Silva. Estes, e mais José Carlos Capinam, Ruy Espinheira Filho, Adelmo Oliveira, José de Oliveira Falcón, Carlos Falck, Maria da Conceição Paranhos entre outros "formam um panorama fecundo e variado" a partir da década de 60. Possui vários livros publicados, como Imago, Ditado, O canto do homem cotidiano, Tapete do tempo, Poemas seletos, Livro de salmos, IX Sonetos da Inconfidência, Lídia de Oxum, O amor é um pássaro selvagem, O domador de mulheres, A arte de traduzir... entre outros. É ganhador, entre tantos prêmios, do Leonard Ross Klein, de tradução; do Afrânio Peixoto, de ensaio; do Fernando Chinaglia, de poesia; e do prêmio nacional do centenário de Jorge de Lima. É bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade Federal da Bahia; mestre pela Southem Illinois University; doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; pós-doutor pela Universidade de Lisboa. Seu trabalho como jornalista compreende participação em vários periódicos, entre os quais, Diário de Notícias, Jornal da Cidade, A Tarde e Tribuna da Bahia. Membro praticante do candomblé, foi consagrado Ogan Omi L’arê, na casa de Oxum, e Obá Arê, na casa de Xangô e no Axé Opô Afonjá. Desde 1989 é cidadão da cidade de Salvador
 
DUAS PALAVRAS SOBRE SILVÉRIO DUQUE
por Gustavo Felicíssimo*
Creio na existência de dois tipos de leituras: a erudita, revelada por autores preocupados em dar ao texto um valor de interesse fundamental; e a vacilante, que engloba as leituras que proporcionam intelecção abstrata, não conferindo nenhuma sacralidade à obra lida. Certamente os poemas deste A pele de Esaú, de Silvério Duque, se inserem dentre aquelas do primeiro tipo, pois foram baseados em uma narrativa bíblica antiqüíssima (sobre a qual Ildásio Tavares discorre muito bem no prefácio da obra), fonte de enigma e sabedoria.
 
Vale lembrar que nada na trajetória humana foi capaz de inspirar tantas obras de arte, tantos artistas, nas mais diferentes latitudes e longitudes do mundo ocidental, do que a Bíblia. Levando-se em conta que o Livro Sagrado do Cristianismo está no centro da nossa civilização, estranho seria se não fosse assim. E foram muitos os poetas que nela ou no cristianismo se inspiraram, com interesses e motivos vários, de diversas estirpes e épocas distintas, como Camões ou Bruno Tolentino, de quem se pode ouvir o eco na poesia de Silvério Duque, passando por Antero de Quental e Jorge de Lima, até encontrarmos o frescor de A pele de Esaú, uma obra dada ao leitor contemplativo, pois favorece a um recolhimento que possa proporcionar a reflexão adequada em relação ao universo circundante à obra.
 
Após ler os primeiros poemas deste livro percebi claramente que não se tratava de um compêndio qualquer de poesia, mas de uma obra refinada, alquímica, tecida com engenho e arte, em que o poeta apresenta-nos uma alternância riquíssima de perspectivas e expressões dramáticas do contrário, bem diversa e não apenas catártica, resultando em um canto verdadeiro, uma unidade e uma realidade concreta, não apenas a história evocada, objeto de meditação, mas os dramas pessoais do autor, suas vicissitudes, sonhos e desilusão. Enfim, uma obra muito superior ao que nos vem sendo apresentado pela maioria dos nossos contemporâneos.
 
Se pudesse resumir A pele de Esaú em uma única palavra, eu diria: inefável!
 
*Gustavo Felicíssimo, Poeta e ensaísta, Gustavo Felicíssimo, 1971, é natural de Marília, interior de São Paulo, radicando-se na Bahia a partir de 1993. Vive desde janeiro de 2007 entre Itabuna e Ilhéus.
Poeta e ensaísta, tem extensa participação na imprensa baiana e sites brasileiros especializados em literatura. Publicou “Diálogos – Panorama da nova poesia grapiúna, 2009, Editus/Via Litterarum.
Fundou, juntamente com outros escritores, o tablóide literário SOPA, em Salvador, do qual foi seu editor. Atua como preparador de textos para editoras e poetas, tendo colaborado para a publicação dos livros: “Firmino Rocha: poemas escolhidos e inéditos”, Via Litterarum, 2008; “Plínio de Almeida, obra reunida”, Editus, 2009, e “Rascunhos do absurdo”, de Jorge Elias Neto, no prelo.
Edita o blog Sopa de Poesia, onde publica poemas e ensaios, cujo endereço virtual é:
www.sopadepoesia.blogspot.com
 
SILVÉRIO DUQUE
* Idade: 31
* Sexo: Masculino
* Signo astrológico: Áries
* Ano do zodíaco: Cavalo
* Atividade: Artes
* Profissão: Professor
* Local: Feira de Santana, Bahia, Bradil.


(POEMAS DO LIVRO "A PELE DE ESAÚ")

Que sabes tu dos frutos, das sementes,
da dureza das flores contra o vento?
A aurora vem tragar a noite espessa
de onde brotou, sem dores, o teu grito.

Se a afirmação do amor nos aborrece,
morrer é mera vocação dos vivos,
pois, no morrer de tudo, há um recomeço.
Não queiras mal ao tempo ou ao espanto;

não queiras mal ao grão, à terra escura...
Que sabes tu das trevas ou da carne?
Que sabes tu das noites, dos princípios?

Hoje, é chegado o tempo dos retornos
e toda forma espera o seu ofício
como o vaso existente em todo barro.


...uma Canção de amor, para Lucifrance Castro

Teu sorriso, na foto, envelheceu –
envelhecemos juntos... Tudo passa:
o que se achou perdido entre a gaveta
e os sonhos, as carícias no teu rosto,

a noite derramando-se em ternura
e sono, o amanhecer que partilhamos...
Tudo passa; até mesmo a tua ausência
e a saudade que trago de quem somos.

Mas, mesmo na saudade, há dor e abrigo;
vontade de ficar e desespero.
O teu sorriso envelheceu comigo,

e, eternamente, se entrelaça em mim,
pois, contra o tempo que nos aniquila,
há a persistência viva das lembranças.

Candeias, 13 de dezembro de 2009.


( penso no fogo e o fim de tudo
é pesado sobre os meus ombros
e, entre os silêncios mais esplêndidos
perdi meu nome... achei escombros

a vida, este sopro entre as cinzas
onde, na dor, Tu te divisas

vai se acabando, tudo passa
e o que deixarei para trás
não importa, tudo é ilusão

mas a alma, em vão, vê e deseja
a oração do tempo e esta igreja... )

tudo é tão terrível, Senhor
estes silêncios colhendo as orações e os frutos
a temeridade presente na Beleza
a navalha despertando a carne
o coração que bate
o pulso aberto
este morrer de tantas coisas
a indagação da Eternidade
a dúvida
o chão
a chuva
o barro paciente
o vazo que em todo barro existe
o oleiro
o instante fugaz como
todo instante
o instante fugaz como tudo
a noite
as estrelas
o dia sem nuvens
o corpo
o outro corpo
o espaço
a medida
o campo
as reses
a vida a brotar da morte de toda semente
o mover de tudo
o musgo
os muros
ainda que eu veja tudo
e esteja em tudo
toda mentira me é pouca
o passado
o porvir
a dor que trago agora
o peito
o braço
o olho
o sexo
os pés
o mar
o céu
( mas entre o mar e o céu o abraço insano )
o mar
o céu
( dois infinitos que no Azul se inflamam )
o mar
e o céu
( este mútuo espelhar entre os eternos )
as estrelas no espaço
tristes
o afastamento
o encontro
o martírio
o amor
a renúncia
o Minotauro
a falsa fé de Minos
as asas de Ícaro
Pasifae
o Touro
o Labirinto
o muito perder-se de Dédalos
a Esfinge
o enigma
o precipício
( esta mulher, Senhor
meu naufragar em seu corpo
o seu cheiro
a sua carne
o seu delírio
o suor
o gozo
as entranhas
toda ela e tudo... )

E sempre, em meu olhar, o mesmo rosto,
a mesma noite, o mesmo labirinto.
O anjo que eu vi cair, já recomposto,
evola-se na luz – Eu não o pressinto...?

Avistei-o, através deste sol-posto,
sob o livor da morte e meus instintos,
ardente e triste sobre os céus de agosto
como as coisas que vi e agora sinto,

pois maior é o Mistério à minha frente.
( Nesse vento indo e vindo pelas portas,
eu penso em Deus e nada está ausente... )

– Somos memória e a morte a todos corta,
meu irmão Esaú precito e crente,
mas só a visão de Deus é o que te importa.


Candeias, 01 de fevereiro de 2010.


A PELE DE ESAÚ
 
Silvério Duque, é um poeta feirense, abnegado ao que faz e, que pela sua competência, já goza de elevado conceito entre seus pares, e todos os experts em literatura que da sua obra tomam conhecimento. O Viva Feira, ao conhecer o trabalho deste poeta, passou a acompanhar seu blog e, inclusive, abriu uma coluna para publicar seu trabalho e noticiar o desenvolvimento de seus poemas e críticas literárias para o conhecimento de Feira de Santana. No dia 06 de maio às 20:00, no CUCA, Silvério Duque lançou  seu mais novo trabalho, denominado "A pele de Esaú", o que foi um presente para atual literatura brasileira. Na matéria "A ESCRITURA DE SILVÉRIO" de Ildásio Tavares, renomado poeta, ficcionista, dramaturgo e jornalista baiano, com prestígio nacional, Silvério Duque, "...pode pôr conflitos no papel com efetividade... Por isso é poeta." e, no entendimento de Gustavo Felicíssimo, poeta e ensaísta paulista, radicado na Bahia, afirma: "Se pudesse resumir A pele de Esaú em uma única palavra, eu diria: inefável!" Nos do Viva Feira que acompanhamos o desenvolvimento do trabalho de Silvério Duque, concordamos com a afirmação dos literatos em gênero número e grau.

 




POETA SILVÉRIO DUQUE

Do horror à maravilha:Do literário e do teológico

na série PENNY DREADFUL
Publicado em: 15/07/2014 - 09:07:16


    ao Aurélio Schommer, historiador
    e aos mestres e amigos Karleno Bocarro e Paulo Cruz

    É necessário, outrossim, que a essência de Deus coincida com o seu ser. Com efeito, em todas aquelas coisas em que a essência difere do ser, necessariamente há uma diferença entre o seu ser e a sua essência, pois é virtude do seu ser que se diz existir uma coisa, ao passo que é virtude de sua essência que se diz o que tal coisa é.
    Sto. TOMÁS DE AQUINO




    Somos filhos do século XIX... O século XX nada mais foi do que o desenvolvimento das melhores invenções de seu antecessor e a aplicabilidade de suas piores ideias. Para piorar, o século XXI, em sua primeira década, não se mostrou menos que a excrecência de ambos. Se alguém tiver dúvidas, é só reparar na grande quantidade de jovens perdidos em seus caríssimos celulares de última geração, abrindo largos e falsos sorrisos em numerosas selfies para o Facebook, enquanto enchem suas cabecinhas com pensamentos e palavras de ordem comunista.
    Na nova série Penny Dreadful (HBO, 2014), o século XIX, no melhor estilo eclético de um O Ateneu, apresenta-se como um intricado e diverso organismo onde realidade e fantasia, presença e memória, cientificismo, religiosidade e psicologismo, andam de mãos dadas, tornando-se o principal e mais elaborado personagem de toda a série.  Esta nova trama de terror, romance, erotismo e drama, que o canal HBO exibe desde a última sexta feira 13, estrelada por atores do melhor e mais diverso escalão, como Eva Green, Timothy Dalton e Josh Hartnett, ao lado de nomes menos conhecidos, mas de talento e carisma excepcionais, como Reeve Carney e Harry Treadaway, vêm se juntar a um time extremamente seleto e sofisticado de produções para a TV que, a exemplo de House, The Walking Dead, Games of Thrones, Hannibal e Breaking Bad, entre outras, provam, mais uma vez, que a vida inteligente e a dramaticidade elaborada, não estão, ultimamente, no cinema.
    Opulenta e dinâmica, Penny Dreadful devolve à Era Vitoriana um caráter a muito perdido, que é o de unir forças completamente opostas, como a beleza e o terror ou mesmo a ciência e o mistério, e onde as possibilidades dramáticas e referenciais parecem ilimitadas. Digo isso após constatar, à maneira de um Conselheiro Acácio, do famoso romance do Eça, uma característica óbvia, mas não menos maravilhosa em seu enredo: não haver um único elemento comum, e de relevada importância à segunda metade do século XIX, principalmente à Era Vitoriana, que não se encaixe em sua abordagem. O primeiro deles é a própria transformação pela qual o século XIX passou, onde o mundo rural era cada vez mais abandonado, dando lugar à cidade grande, como a Londres de 1893 – época e local onde se passa toda a trama idealizada e executada por seu roteirista e diretor, John Logan (de Operação Skayfall) –; uma Londres suja, triste e corrupta, mas iluminada a gás e cada vez mais frenética, graças as máquinas, aos motores a vapor (substituido animais e homens) e as primeiras experiências com a eletricidade, a capital britânica era, àquela época, o que melhor se podia chamar de futurista. Aliás, a Londres que John Logan apresenta em Penny Dreadful é de um realismo e um colorido que não fazem feio diante de mestres como Zola ou Raul Pompéia. Fotografada, todavia, numa Dublin real e menos descaracterizada pelas transformações arquitetônicas, feitas ao longo de 121 anos de história, do que a Londres atual, Penny Dreadful se veste de uma paleta demasiadamente peculiar, repleta de muito vermelho-rubi, verde-esmeralda, amarelo-ouro, azul-pavão; cores que os vitorianos usavam para encobrir a cinza dos nevoeiros e das crescentes e desumanas indústrias londrinas... e muita, muita cor preta.
    Mas outros elementos tipicamente vitorianos não se apresentam menos importantes; pelo contrário, mostram-se essenciais à composição e à compreensão deste período de maravilhas em que Penny Dreadful se debruça. Esses elementos, ou melhor, temas que alimentaram a imaginação fértil dos ingleses daquela segunda metade do século retrasado, e são quase que verdadeiras obsessões da Era Vitoriana, começam com a Egiptologia, capaz de conferir um caráter ao mesmo tempo científico e místico àqueles anos, passando pelo Espiritismo que, em meados do século XIX em diante, virou um verdadeiro objeto de fascínio e mesmo de espetáculo na Europa e nos Estados Unidos. Esse caráter espalhafatoso das sessões espíritas – até porque, pelo que me parece, Penny Dreadful vê o Espiritismo simplesmente como uma religião barata, e livre das culpas e sacrifícios necessários do Cristianismo – é muito bem explorado em uma das cenas mais chocantes da série, quando, no segundo capítulo da primeira temporada, a jovem médium e detetive (isso m    esmo, médium e detetive), a bela e misteriosa Vanessa Ives (interpretada pela estonteante Eva Green), incorpora o próprio Mal, revelando não só os planos seculares do Coisa-Ruim, mas, para começar, a própria licenciosidade dos comensais ali presentes.     
    Do outro lado, há elementos menos ligados ao místico ou mesmo ao fantasmagórico, como os crimes violentos de Jack, o Estripador. As cinco prostitutas que o primeiro grande Serial Killer da história retalhou, em 1888, são uma face simbolizada da obsessão dos vitorianos pelo crime, resultado direto, segundo alguns especialistas de seu tempo, da crescente industrialização e urbanização europeia, que associavam os bairros e os redutos de trabalhadores braçais à miséria e à violência física e moral. Com essa obsessão pela criminalidade, surge a curiosidade e a admiração pela figura do detetive, a exemplo do maior de todos: Sherlock Holmes, personagem icônico de Arthur Conan Doyle, que, em Penny Dreadful, é representado pela beleza e o ar misterioso de Vanessa Ives. Na mesma linha de elementos menos metafísicos, Penny Dreadful ainda traz o debate sobre a exploração da África, que, àquela época, incendiava a imaginação dos vitorianos com relatos de maravilhas e descobertas científicas, representada pela aristocráti    ca figura do lorde Malcolm (Timothy Dalton – o pior 007 da história) e seu mordomo Sembene (Danny Sapani), que, pelo que me parece, são referências diretas às figuras reais de Henry Morton Stanley e o jovem Kalulu. Há, também, as Ciências Naturais, como a teoria evolutiva e Darwin e o Determinismo de Taine, colocando em xeque as questões morais, religiosas e científicas de seu tempo e toda ética que as envolviam. Os trens, navios e outras máquinas a vapor, facilitando o deslocamento de pessoas, a produção e o escoamento de riquezas e a pornografia, que, na contramão da repressão sexual da Era Vitoriana, celebrava um mundo de liberdade e diversão que, graças ao Neocolonialismo, e àqueles que podia aproveitar da Belle Époque nascente, parecia infinito e inabalável.
    E é claro que em toda esta mistura de temas e elementos que é Penny Dreadful não poderia faltar, mesmo que discretamente – pois é assim que deve sê-lo –, o Tédio, aquele bom e velho mal-do-século simbolizado pela tuberculose (e há uma tuberculosa, e, também, prostituta, na série) que tanto identifica os românticos. Este enfado diante da vida, e de sua vivência mais intensa, nada mais é do que uma reação à efemeridade da existência, pois é da efemeridade da vida que seus absurdos se originam, e, consequentemente, à predominância da morte em tudo que existe. A morte é a grande musa dos românticos e está sempre lá, em cada canto, momento ou ação na série, prevalecendo inexorável sobre todas as outras coisas. Embora não seja uma invenção romântica, a melancolia jamais seria tão bem vivenciada do que em um século onde, como disse a pouco, o horror e a maravilha andavam de mãos dadas, sem os conflitos característicos do século XVII, ou o falso desprezo afetado do século XVIII, ou, muito menos, a aceitabilidade ban    alizada do século XX.
    Todavia, se há um elemento do século XIX que Penny Dreadful utiliza como nenhum outro é a Literatura. O próprio título da série (aliás, genial) é uma referência à literatura dos últimos anos do século de Goethe, Dostoievsky e Kierkegaard. Os penny dreadfuls (também chamados de penny awfuls) eram livretos impressos no papel mais vagabundo possível, o que acabou originando também a expressão pulp fiction, que se faziam repletos de historietas macabras e, por vezes, violentas; por custarem centavos, ou pennies, e terem caráter aterrorizante (ou dreadful), tornaram-se um fenômeno de massificação da leitura, entre as classes trabalhadoras, como os folhetins fizeram aqui, no Brasil, a partir de 1846, principalmente entre as classes mais abastadas, com os nomes de Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e do ainda inexperiente José de Alencar.
    Daí em diante, seguem-se referências a Doyle, e ao seu já citado Sherlock Holmes, Charles Dickens, Oscar Wilde (o próprio Dorian Gray é também personagem em Penny Dreadful), o irlandês Bram Stoker, pois os acontecimentos e as investigações da série se passam paralelamente aos acontecimentos descritos em seu Drácula, que além de ser uma figura presente, mesmo em sua ausência, a jovem paixão do mestre vampiro, Mina, não é ninguém menos que a filha do lorde Malcoln, sequestrada pelo mais significativo de todos os sanguessugas da história –, e, a não menos importante, Mary Shelley e seu Frankenstein – tanto o Dr. Frankenstein quanto seu monstro, o criador e a criatura, são personagens importantíssimos à desenvoltura de toda a trama. Juntam-se a todos esses romancistas citações de poetas e teatrólogos como Keats, Goethe, Wordsworth, Ibsen e Shakespeare – este último, apesar de não ser romântico, tem uma contribuição para o Romantismo que poucos românticos tiveram.
 
    Mas é, justamente, com a figura de seu jovem Dr. Frankenstein que Penny Dreadful chega aos seus momentos mais intensos de dramaticidade e inteligência, alinhavados a uma compreensão magnífica de toda a época retrata e de seus efeitos à nossa atual sociedade.  Como se não bastasse, abre um precedente maravilhoso para discutir um elemento menos explicito na narrativa, mas tão presente quanto qualquer outro, até agora, apresentado: a Religiosidade.
    Tanto no romance publicado pela jovem Shelley, em 1818, quanto no intricado enredo de Penny Dreadful, o Dr. Frankenstein, e sua criatura feita de pedaços de cadáveres humanos e animado pelos raios de uma cataclísmica tempestade qual um deus em fúria, sempre será a metáfora consciente da arrogância da ciência em equiparação aos feitos da Divindade. Um bom exemplo disso é quando, colocado frente a frente com um reconhecido cadáver de um vampiro, o jovem doutor Frankenstein põe-se, simplesmente, a dissecá-lo, vendo, ali, apenas anomalias físicas em um corpo inerte. Essa atitude do jovem doutor personifica muito bem o ideal cientificista daquela época: incapazes de compreender e, muito menos, conceber o metafísico, positivistas, deterministas, marxistas e tutti quanti, preferiam ignorá-lo, mesmo que, concretamente, o metafísico se apresente diante se seus olhos. A ideia aqui pode parecer meio estranha a um Kant, no entanto, quando vemos sobre esta óptica a fria dissecação de um vampiro como um cadáver comum, per    guntamos se essa aparente e falsa cegueira dos donatários do saber, não é uma forma de desmascaramento da ciência cínica que busca nos moldar até os dias de hoje.
    Quando alguém pretende assumir o papel de Deus, como o jovem Dr. Victor Frankenstein tenta fazer, deveria, no mínimo, estar preparado para sentir aquilo que Deus deve sentir, como a dor da desobediência e a tristeza da rejeição por parte daquilo que ele criou com tanto afinco, mas não é isso o que se vê quando criador e criatura se encontram em um diálogo cheio de rancor e frustração para ambos – todavia, rico de referências e discussões morais para nós, meros espectadores.  O próprio nascimento dramático e doloroso do monstro de Frankenstein, na série, não é, senão, a própria alegoria do homem sem Deus: só, abandonado, sem conforto ou sentido em um mundo onde o mais ínfimo propósito não existe e onde tudo que ele, mero resultado acidental de podridão e descargas elétricas, pode experimentar de mais concreto é a orfandade, porque é certo que o mundo puro e natural, a história e a ciência, por mais maravilhosas que possam ser, acabam por esgotar a realidade; o mundo sem Deus é, do contrário que pensam muitos,     transforma-se não em um resultado direto da razão, mas num  produto de fantasia, projeção humana, elaboração simbólica, tudo sem substância ou profundidade ontológica. E é de sua própria orfandade que Victor Frankenstein tira a ideia fixa de “fabricar vida”, como um recurso inteligente, mas desesperado, de alguém que reconhece o vazio ontológico de uma existência sem fé. Essa fixação, diga-se, é outra característica da era Vitoriana, exacerbada principalmente pela literatura de Dickens, que era cheia de protagonistas órfãos. A destituição, miséria e doença que vieram com a urbanização desenfreada e com a Revolução Industrial, provocam essa orfandade como a que se vê em Oliver Twist, mas o ateísmo também nos deixa órfãos e essa orfandade nos faz criar monstros.
    Se há um monstro ansiando em cada um de nós, o ateísmo se mostra como o pior deles, pois nos revela o mais abjeto do que em nosso âmago existe, mesmo que, em alguns casos, possamos conviver, ou nos enganar com esse monstro, como é o caso do Dorian Gray, tanto o do livro, quanto o da série, a viver as delícias da vida e da beleza eternas, enquanto a sua imagem, refletida em um quadro escondido em sua mansão, deteriora-se a cada novo dia de prazer sem sentido ao qual o “jovem” Dorian se entrega. A impudência de Dorian Gray não é só a contrafação de seu quadro, mas de todo aquele que acredita poder fugir à própria consciência e ao dever moral consigo mesmo; isso para não dizer o quanto que existe de desafio à Divindade nessa diabólica vida sem maiores relevos a qual o personagem de Oscar Wilde se entrega; daí este reflexo falso e distorcido que vemos em Dorian, mas também entre Victor Frankenstein e seu monstro, que não desperta para o Divino, dando as costas à verdadeira face de seu caráter, que apodrece mais     e mais, à medida que sua alma se veste de um vazio cada vez maior e mais profundo. Mas ninguém pode negar, no entanto, o fascínio do moderno, o poder da técnica, da ciência e outros valores naturais como a liberdade, sexualidade ou pluralismo, que são também foco da modernidade, e que o Cristianismo secular nem sempre compreendeu muito bem. Juntam-se a isso a luta contra a inevitabilidade da natureza e da morte, ou o simples ato de ignorar a morte e seu poder ou não tomá-la como um assunto de grande relevância ou como se a felicidade não fosse um produto do efêmero para o efêmero. A modernidade diante da fé e a fé diante da modernidade geram um reflexo de proporções diversas e muito contraditória onde uma interface não pode jamais prevalecer sobre a outra e, quase sempre, a modernidade ganha, fazendo com que o principio da transcendência seja esquecido e a perpetuação do efêmero e do passageiro uma meta sempre a ser alcançada, seja com o Dr. Frankenstein e seu monstro, produtos diretos do ateísmo, ou com Dor    ian Gray, e sua luta constante contra o spleen destes dois mundos: o antigo e o moderno; o científico e aquele mundo onde a fé é imanente às atitudes puramente humanas.   
    Sto. Agostinho, por exemplo, acreditava que o homem, enquanto criação de Deus, estaria condenado a viver sem paz ou conforto, só encontrando repouso se para Deus ele retornasse. Assim é o Dr. Frankenstein e seu monstro: duas criaturas sem Deus, destinados a viver uma orfandade sem precedentes e sem esperar nada da vida, ou um do outro, a não ser a dor e o abandono, e se o homem vem da tabela periódica e para a tabela periódica ele volta, que sentido profundo e real pode se sustentar dessa constatação? De todos os elementos teológicos presente em Penny Dreadful este é, de longe, o mais forte e o mais recorrente em toda a série, encontrando na figura do Dr. Frankenstein, e seu monstro, sua melhor personificação. Todas as provas da existência de Deus devem conter numa espécie de quadro tomista explicativo do real como um todo conciliando razão e revelação divina, e a distinção ontológica entre essência e existência permite reinterpretar o princípio aristotélico segundo o qual a forma revela a existência. Entret    anto, a maneira como o Dr. Frankenstein interpreta e aplica essa máxima de Tomás de Aquino é, no mínimo, diabólica, pois nem ele nem sua criação podem existir por si mesmos, muito menos ser a razão de sua própria existência pelo simples fato de sua obsessão nascer da perda de muitas coisas, a começar pela própria razão. Além do mais, que existência a forma do monstro de Frankenstein revela, a não ser a existência da loucura de seu criador...?!
    Mas as questões e os paradigmas levantados pela figura do Dr. Frankenstein e seu monstro não param por aí: em um diálogo com seu próprio criador, o mostro de Frankenstein afirma não haver mais lugar para Keats ou Goethe, muito menos lugar para a alma ou o amor; onde tudo isso havia, existe apenas um homem que abraçou a máquina, que substituiu sua carne e sua alma por engrenagens e rodas dentadas. Esse monstro de Frankenstein, consciente de seu papel nesse mundo, declara-se como a própria personificação da Modernidade: feia, disforme e sofrível, composto das sobras inúteis de um século que exaltou o passado e o futuro, o heroísmo e a autopiedade; o crepúsculo da Revolução e a ascensão da Ciência; que reabilitou o Barroco e a Idade Média, mas matou Deus e o espírito humano. Não obstante, quando matamos Deus não nos livramos do Diabo, muito pelo contrário, escancaramos a porta do mundo para ele, só nos sobrando a falta de ordem e de beleza, sobrando-nos apenas o Caos. E o que nasce do caos (e a mente de Victor     Frankenstein não é nada mais do que caos tentando racionalizar), no caótico permanecerá.
    No mundo que este monstro representa não há lugar para o belo ou, muito menos, para o ordenado... Pobre de Aristóteles, que acreditava que o belo reside na magnitude e na ordem, mas o monstro de Frankenstein, seja o imaginado originalmente por Mary Shelley, ou o que se apresenta em Penny Dreadful são, sobre certos aspectos (principalmente àqueles ligados à personificação da modernidade) a negação desta afirmação do Estagirita. Na dúvida, lembremos como o espírito do Romantismo foi, por exemplo, rapidamente substituído pela literatura realista-naturalista, que nada mais é do que puro e demasiado cinismo literário, contra a exacerbada, porém, sincera paixão romântica. Mesmo os casos mais geniais, como os de nosso Machado de Assis, não deixam de ser cinismo, por mais genial que eles sejam. E se a arte é, antes de qualquer coisa, reflexo da sociedade que a cria, esta sociedade se fez tão cínica quanto Darwin ou Marx – esses últimos, demasiadamente cínicos e sem muita genialidade, diga-se de passagem.
    Já outros geniais, e menos cínicos, enxergaram com profunda dor o fim de uma era tão fabulosa, temendo, muitas vezes, pelo legado de suas ideias, reconhecendo que o fim do Romantismo poderia significar o fim dos últimos resquícios de um espírito humano pleno, onde seus sentimentos por mais exacerbados que fossem não prevaleciam sobre seus princípios, muito menos seus princípios como destruidores de seus sentimentos, como já alertara Shelley. Posso me lembrar de três neste momento: Dostoievsky, em Crime e Castigo, Tolstói em Guerra e Paz e Baudelaire, num explícito lamento pelo século que se extinguia com toda a sua grandeza, em O crepúsculo romântico, onde se pode ler:

    Que le soleil est beau quand tout frais il se lève,
Comme une explosion nous lançant son bonjour!
— Bienheureux celui-là qui peut avec amour
Saluer son coucher plus glorieux qu`un rêve!

Je me souviens!... J`ai vu tout, fleur, source, sillon,
Se pâmer sous son oeil comme un coeur qui palpite...
— Courons vers l`horizon, il est tard, courons vite,
Pour attraper au moins un oblique rayon!

Mais je poursuis en vain le Dieu qui se retire;
L`irrésistible Nuit établit son empire,
Noire, humide, funeste et pleine de frissons;

Une odeur de tombeau dans les ténèbres nage,
Et mon pied peureux froisse, au bord du marécage,
Des crapauds imprévus et de froids limaçons.


    e que eu traduzo aqui da seguinte maneira:

    Belo é o sol quando ao céu – risonho – se levanta
numa explosão que nos impele ao seu bom-dia!
Feliz quem pode de ébrio amor e com alegria
saudar-lhe o ocaso cuja glória nos encanta.

Se bem me lembro, tudo eu vi murchar: a fonte,
a flor, o sulco e um coração que não palpita.
– Corramos todos ao esplendor que nos evita
para abraçar o que sobrou deste horizonte.

Mas eu persigo em vão a um Deus que se retira...
A irresistível Noite ao seu império inspira
inundando de sombras as celestes rotas.

Um odor de tumbas entre as trevas já se espalha
e em meio aos charcos meu medroso pé estraçalha
inesperadas rãs e muitas lesmas mortas.

    Não seria nenhuma idiotice pensar que Penny Dreadful parece, de certa forma, lamentar profundamente o fim da era romântica, fazendo com que seus espectadores também se sintam saudosos de um período tão distante, que, sequer, viveram-no, mas capazes de reconhecê-lo como uma época de inventividade tão grande que é quase impossível nos desvencilhar de sua influência. E não poderia ser diferente, graças ao turbilhão feroz que foi o século XIX, os vitorianos poderiam dormir convictos de que todas as explicações possíveis, inclusive da origem de tudo, poderiam ser respondidas pela Bíblia e, logo em seguida, acordarem no outro dia em um mundo expandido ao limite da incompreensão graças aos avanços da ciência e da filosofia que o esquadrinhava, eviscerava-o e era anotado pelas mentes e mãos de sociólogos, filósofos, naturalistas; onde as oportunidades de enriquecerem e caírem na mais completa miséria eram praticamente iguais; onde tudo, mesmo o crime e a pornografia, democratizavam-se e proliferavam; onde o real e o     imaginário eram igualmente possíveis e personagens como o Conde Drácula ou mesmo o dandismo de Dorian Gray poderiam ser topados pela rua como a qualquer pessoa real ou comum. Tudo isso porque tanto a fantasia parecia um decalque da realidade, bem como a realidade um debuxo do fantasioso e do imaginário.
    Como se não bastasse, em todo esse emaranhado de símbolos literários, filosóficos e, principalmente, religiosos, Penny Dreadful abre, ainda, um precedente à outra análise, a do número imenso de filmes, séries, livros (e mesmo novelas) que recorrem ao passado, principalmente ao século XIX, para, ali, concentrarem seus enredos, e, mais ainda, na simbólica fixação que Hollywood tem por reescrever a história. Os exemplos são numerosos: House, que nada mais é que uma versão do já citado detetive criado por Conan Doyle, ou as séries também baseadas nele como Sherlock e Elementary; Drácula, Sleepy Hollow, ou as históricas The Tudors, Games of Thrones e Da Vincin’s Demons – todas, às suas maneiras, pouco ou muito teológicas... Até a nova temporada de 24 Horas não deixa de ser um retorno a um passado recente e de certo sucesso pelo seu realismo moral e político.
    Esse desespero em buscar o passado – e Penny Dreadful é muito mais digna de credibilidade historiográfica do que foi The Tudors, por exemplo –,  e nele resgatar um tempo de ideias originais e grandiosas, utilizando-se de cenários reais e da profusão de detalhes para tornar crível o fantasioso e o literário de seus personagens e de seu enredo,  só demonstra o quanto que também estamos órfãos de boas histórias, para recobrarmos as boas sensações da vida; descrentes de uma excelente literatura, para que o mundo a nossa volta se faça sentir cada vez mais; e, mais do que isso, desiludidos na busca de um sentido em tudo que fazemos; do contrário, como experimentar o prazer da estética se a nossa percepção não for posta à prova, assim como a fé precisa de obras...? Olhar para o passado, distante ou mesmo mais recente, é o que mais os artistas, escritores, roteiristas, noveleiros, cantores de barzinho e et cœtera, mais têm feito ultimamente. E quando se olha tanto para o passado é um sinal claro de que o presente nã    o está indo lá grandes coisas... não concordam?!








    Candeias, durante a Copa do Mundo de Futebol de 2014.


Fonte: Silvério Duque







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